Sonhos não envelhecem

Reunião com Esther Dweck para tratar da descentralização dos aposentados e pensionistas do IFAL e IFRO Foto: gov.br

Yuri Buarque*

Esta fotografia vai, sempre, significar muito. Certamente, não trará apenas lembranças boas – e esse dia, particularmente, foi um difícil dia para se estar na presidência do Sintietfal. Mas, sim, e acima de tudo, é o retrato do anúncio de uma grandiosa vitória, que não começou a ser construída semana passada e nem se resume a uma reunião. Sobretudo, de uma vitória que é coletiva, que não caiu do céu e que (apesar de ter havido vilões) não vem por mérito individual de nenhum super-herói.

Antes da alegria, essa imagem – e toda a carga de memórias e emoções que ela evoca – mobiliza a minha revolta. E isso não é necessariamente ruim. Com efeito, não fosse a revolta coletiva e consciente de centenas de aposentadas, aposentados e pensionistas que se recusaram a aceitar em silêncio um “destino” imposto pelo desgoverno anterior e abraçado, naquele momento, pela reitoria do Instituto Federal de Alagoas; não fosse a incansável mobilização da categoria, a conquista que hoje se encontra assegurada e em vias de consumação, simplesmente, não passaria de um sonho ainda distante – e disso não creio haver quem ouse discordar.

De 2022 para cá, foram três longos anos de muitas, mas muitas lutas: atos públicos, assembleias e reuniões, tanto em Maceió quanto em Brasília; estivemos nas ruas, no sindicato, na reitoria, no parlamento, no INSS e no MGI; foram diversas faixas, outdoors, cartazes, camisas e panfletos; vídeos, notas, matérias, entrevistas, cartas, moções, petições, ofícios e um enorme etc.

Nesse intervalo, sofrimento, angústia, transtornos, cabelos a menos (porém, fios brancos, rugas e olheiras a mais) e uma série de prejuízos financeiros e à saúde – em alguns casos irreversíveis, ou reversíveis, mas com sequelas permanentes –, atingiram quem viveu essa luta, especialmente, por óbvio, as/os nossas/os aposentadas/os – que, não é demais lembrar, são pessoas com a saúde, em maior ou menor medida, já fragilizada.

Passo a passo, superando qualquer previsão derrotista, até o aguardado dia da reunião com a ministra Ester Dweck, as aposentadas e os aposentados do Ifal – sobretudo, as aposentadas, posto que, também nessa luta, o protagonismo foi fundamentalmente das mulheres – fizeram, com exemplar disposição, sua mensagem chegar a diversos interlocutores: deputados, senadores, outros ministros (como o da educação) e, até mesmo, ao presidente Lula, quando de sua visita a Alagoas, em maio de 2024 (no auge de nossa histórica greve nacional).

Nas mais diversas ocasiões, categoria e sindicato marcharam juntos, formando um só corpo, uma só voz, que, enfim, foi ouvida por quem precisávamos alcançar. Mesmo agora pertencendo ao quadro de servidoras/es inativas/os (após décadas de valorosas contribuições), nossas/os companheiras/os aposentadas/os (com o apoio de honrosas/os camaradas da ativa) continuam nos ensinado como é que se luta por uma causa justa, por um sonho daqueles que se sonha junto, daqueles que, coletivamente, podemos tornar realidade. Vocês, a quem respeitosamente chamo companheiras e companheiros, foram o coração, o cérebro, os braços e as pernas que levaram a cabo essa empreitada que parecia impossível e que, agora, se aproxima do desfecho almejado.

Depois de tudo o que atravessamos até aqui, mais do que justo, é imperioso celebrarmos esse gigantesco passo dado. Sem embargo, a celebração há de ser imensuravelmente maior quando o que, depois de tanta luta, nos foi garantido estiver, enfim, materializado. Com isso em vista, é fundamental que permaneçamos alertas, mobilizadas e mobilizados para, o mais logo possível, vivermos esse dia.

De toda essa árdua travessia, herdaremos a sublime lição: ainda que o corpo anuncie nosso indisfarçável cansaço; mesmo que a mente queira, por vezes, fazer crer que os obstáculos estão acima da nossa capacidade de transpô-los; e por mais que a disposição para o “não” se afigure maior que a nossa persistência em busca do “sim”, sigamos acreditando e lutando por aquilo que sonhamos em coletivo, porque, como magnificamente nos lembra a sempre atual canção, “sonhos não envelhecem”¹.

*Yuri Buarque é presidente do Sintietfal e militante do Movimento Luta de Classes

 


¹Clube da Esquina n° 2. Composição de Márcio Borges, Lô Borges e Milton Nascimento. In: NASCIMENTO, Milton; BORGES, Lô. Clube da Esquina. Odeon, 1972.

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