10 de outubro de 2018

Maragogi: Professores do IFAL sofrem intimidação de pai de aluna

Defensor da Escola Sem Partido ameaça processar IFAL por propagação de ideologia de gênero e doutrinação política

A liberdade de expressão e de cátedra está sendo ameaçada no IFAL Câmpus Maragogi.  Na última semana, após uma aula sobre o fascismo, um pai de uma aluna resolveu ameaçar processar o IFAL e dois de seus professores por propagar “ideologia de gênero” e doutrinar politicamente seus alunos, ferindo autonomia dos pais.

Através de uma notificação extrajudicial destinada ao diretor do Câmpus Maragogi, o responsável pela estudante alega que “recentemente se verificou um ato abusivo de um dos docentes, rebatendo qualquer afinidade ao apoio ao candidato a presidente Jair Bolsonaro”. Além disso, acusa docentes de propagar conceitos esquerdistas e de fazerem apologia ao PT.

No documento, há um pedido de retratação dos docentes Renato Bittencourt (filosofia) e Carlos Filgueiras (história) e a abertura de Processo Administrativo Disciplinar, sob a pena de processar a Instituição via Ministério Público Federal e ser movida uma ação de reparação na Justiça.

Um dos professores ameaçados, Renato Bittencourt, em resposta à direção do Câmpus, tratou o caso como uma perseguição à atividade docente.

“[Enquanto] educador de uma autarquia pública federal é meu dever (e cumpro com total rigor) promover o debate de ideias plurais no sentido de construir coletiva e democraticamente o conhecimento com os estudantes, promovendo reflexão crítica e autônoma”, afirma o professor, reivindicando o papel inerente à sua disciplina de questionar e fazer refletir a realidade.

A notificação acusa o IFAL de possuir “professores militantes” que abusam “da boa-fé do adolescente para produzir em seu espírito a vontade de engajar-se nas lutas sociais e de atuar politicamente em favor daquilo que lhes é apresentado como sendo uma realidade justa”.

Para o Sintietfal, essa notificação extrajudicial é uma clara perseguição aos docentes e um atentado contra a liberdade de expressão e de cátedra. “Não podemos permitir que nos aviltem no exercício da nossa profissão, como está sendo feito em Maragogi. Precisamos reagir e combater com firmeza toda onda de fascismo e de intolerância que tem invadido as nossas escolas e todo o país”, afirmou Silvia Regina, vice-presidenta do Sintietfal.

“Somos solidários aos dois docentes e nos colocamos contra qualquer tipo de autoritarismo dentro das instituições. Essa é mais uma tentativa de impor medo aos docentes e querer aplicar, na marra, o projeto da extrema direita, denominado ‘Escola Sem Partido’”, completou a sindicalista.

O professor, que já foi vítima de cyberbullyng e da tentativa de invasão de sua conta no facebook por alunos defensores de Bolsonaro e do fascismo, afirmou que não se intimidará diante dos ataques.

“Estou compartilhando isso, justamente, para unirmos forças, unirmos depoimentos e não cair no medo. Não deixar se abater. Estou firme e convicto que isso faz parte da luta”, afirma Renato, em áudio que viralizou nos grupos de whatsapp.

Em consonância com o deliberado na Assembleia Municipal de Maceió, realizada nesta terça-feira, o Sintietfal atuará intransigentemente na defesa do direito democrático dos servidores e de outros setores oprimidos na sociedade.

“O Sintietfal é um sindicato que está na luta contra o autoritarismo e pela democracia. Somos solidários e acolheremos todos que estejam sofrendo perseguições dentro e fora do IFAL. É necessário, nesta conjuntura, somar forças e resistir em defesa dos direitos e espaços democráticos já conquistados”, prosseguiu a vice-presidenta.

Desdobramentos

A diretoria do Câmpus Maragogi, através de sua assessoria de comunicação do IFAL, informou à imprensa que está apurando o caso para saber se houve infração pedagógica. Confira a nota na íntegra:

O Instituto Federal de Alagoas (Ifal), campus Maragogi, esclarece que está tomando as providências pedagógicas em relação ao caso dos professores do campus que teriam abordado conteúdos políticos-partidários na instituição. O caso foi encaminhado ao departamento acadêmico, que terá dez dias para ouvir os envolvidos no ocorrido. A direção vai montar uma comissão interna para avaliar, se de fato, ocorreu a infração pedagógica no campus. A direção do Ifal Maragogi está à disposição para os possíveis esclarecimentos.

Para o Sintietfal, o IFAL erra ao se posicionar publicamente, informando abrir investigação contra os seus servidores. “Os servidores, na realidade, estão sendo vítimas de uma perseguição ilegal. É um absurdo aceitar que se aja como se estivesse em vigor uma lei que foi considerada inconstitucional”, afirmou Yuri Buarque, diretor jurídico do Sintietfal, em alusão à versão alagoana da lei da mordaça. A Lei “Escola Livre” teve a inconstitucionalidade reconhecida pelo STF em março de 2017.

10 de outubro de 2018

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