17 de julho de 2017

“17 de julho foi o ápice da crise do estado alagoano simbolizado por uma revolta popular”

O diretor de formação política sindical do Sintietfal, Fabiano Duarte, viveu na pele um dos principais momentos políticos da história recente de Alagoas, a queda do governo Suruagy. Há exatos 20 anos, ele servia ao exército e conta, na entrevista realizada pelo Sintietfal, como foram os momentos de tensão do 17 de julho de 1997. Ao mesmo tempo, fala dos antecedentes que levaram a revolta popular, os desdobramentos dela e ainda compara com os dias atuais.

 

Confira a entrevista:

 

Sintietfal – O que representou o 17 de julho para a história de Alagoas?

 

 

Fabiano Duarte – O 17 de julho foi o ápice da crise do estado alagoano, simbolizado por uma revolta popular, que pela primeira vez na história, conseguiu congregar, além os trabalhadores que normalmente participam dos protestos, uma imensa massa de servidores públicos de várias áreas. A novidade, o ponto fora da curva, foi a unidade com os policiais civis e militares, que pela primeira vez marcharam ao lado dos trabalhadores que participaram dessa movimentação.

 

O 17 de julho foi o ápice do processo de quebra do estado e deu um protagonismo, que não se tinha antes, ao movimento sindical, movimentos populares e as forças de esquerda do campo progressista. 

 

Sintietfal – Quais os antecedentes que levaram a essa revolta?

 

Fabiano Duarte – Já se completava quase uma década do famoso acordo dos usineiros, que aconteceu mais ou menos em 1988, na época do Governo Collor.  Como a gente sabe a década de 1990 é uma década de aprofundamento e arrocho neoliberal, o estado de Alagoas como tem uma economia extremamente dependente dos repasses federais e, na época, a dependência ainda era maior. Você tem um setor produtivo muito concentrado no setor sucroalcooleiro e o estado já vinha há praticamente uma década com arrecadação baixíssima, porque o acordo dos usineiros significou deixar o estado praticamente sem arrecadação. Nesse processo o governo do Suruagy não conseguiu manter o padrão de dominação de controle do estado como mantinha no período anterior. 

 

Nesse cenário, estávamos no primeiro governo do FHC e uma das marcas desse governo foi a contrarreforma do estado nos moldes neoliberal, marcado principalmente pelas privatizações e pelos Planos de Demissões Voluntárias. Para vocês terem uma ideia, uma média de 20 mil servidores pediram PDV e isso gerou custos para o estado pagar indenizações e, junto com isso, os precatórios. Enfim, o estado estava liquidado, estava quebrado. A ponto de, no dia 17 de julho, várias categorias do serviço público, saúde, educação e a própria polícia, estar sem receber salários. Eram de seis a oito meses, dependendo da categoria, sem receber nada.

 

Detalhe é que o governador Suruagy havia sido eleito com 80% dos votos, num bloco de aliança partidária que tinha com eles PSDB, PFL, PTB, PMDB. Mas, em pouquíssimo tempo, por conta da conjuntura de uma crise mundial, das convulsões geradas pela política neoliberal no país e da situação de um estado como o nosso, com uma economia hiperdependente da máquina estatal, fez com que se criasse uma situação extramente explosiva, que gerou uma quase insurreição.

 

Sintietfal – E o acordo dos usineiros?

 

Fabiano Duarte – Se nós pudermos caracterizar um principal responsável pela crise que culminou na rebelião de 17 de julho é o modelo de desenvolvimento capitalista alagoano. Modelo assentado principalmente no setor sucroalcooleiro, que trabalha com a superexploração da força de trabalho, com a alta intensidade de degradação ambiental e, fundamentalmente, pelo controle visceral das verbas do fundo público. O capitalismo alagoano ele funciona a partir desses elementos. E a conjuntura que se desenha na década de 1990, até culminar em 1997, é que um pilar desses elementos está quebrado, o estado está quebrado, e sem dúvida nenhuma o acordo dos usineiros, os precatórios, o PDV vão contribuir para quebrar o estado e as pernas do capitalismo alagoano. 

 

Sem dúvida nenhuma, esse acordo dos usineiros baixa numa intensidade muito grande a arrecadação do estado, a própria atividade econômica que estava em crise, somada aos elementos da conjuntura neoliberal, que gerou essa crise.

 

Sintietfal – Como ficou o cenário da luta após a revolta do 17 de julho?

 

Fabiano Duarte – O grande lance dessa data é que definitivamente o movimento sindical, principalmente os ligados os servidores públicos, vai ganhar um protagonismo muito forte e que abriu, no cenário da luta de classes alagoana, a possibilidade dos sindicatos e as referências de esquerda se tornarem alternativas mediante as eleições que vieram depois. Ronaldo Lessa foi eleito governador, Kátia Born se manteve na Prefeitura, Heloísa se elegeu para o senado, uma liderança militar, Paulo Nunes, foi eleito deputado estadual pelo PT.

 

O 17 de julho deu uma alavancada nas forças progressivas, houve uma mudança brusca na correlação de forças, e pela primeira vez, as forças progressistas puderam se apresentar à sociedade como alternativa de poder, pelo menos nessa breve fissura desse bloco oligárquico.

 

Vale ressaltar que esse protagonismo não significou que as forças populares, infelizmente, tivessem preparadas para assumir o poder, no sentido de colocar um poder popular no lugar. Eu acho que foi uma crise conjuntural da dominação das oligarquias, que não chegou a ser uma crise decisiva do estado que colocasse em cheque o controle do estado e das forças produtivas. Isso não estava em questão na época. E infelizmente o bloco de forças progressistas liderado pelo PSB e PT apostou praticamente todas as fichas na luta institucional em aliança com setores das oligarquias o que foi um erro na minha avaliação.

 

Sintietfal – E você, onde estava naquele dia?

 

Fabiano Duarte – Quando estourou a crise de 17 de julho e as tropas federais foram utilizadas para conter os manifestantes, eu era aluno do Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva do 59º Batalhão da Infantaria Motorizada.
 

Os alunos do NPOR, da turma de 1997, a qual eu fazia parte, ficaram com a incumbência de guardar o quartel. Enquanto que os recrutas, os soldados, a tropa de uma maneira geral, desceram para o cenário da Praça Dom Pedro II, na Assembleia Legislativa. 

 

Lembrando que, em pouco tempo, as Forças Federais de outros estados chegaram. Rio de Janeiro, Ceará e Pernambuco vieram reforçar as tropas federais aqui, porque, afinal, o contingente era pequeno e a situação realmente foi muito grave. Para você ter uma ideia chegou aqui uma companhia do Batalhão Santos Drumond, do Exército do Rio de Janeiro, com paraquedistas –chegaram depois do episódio da Praça, mas vieram. Veio também cavalaria do Ceará, tanques e helicópteros de Pernambuco. Em um curto espaço de tempo, em menos de 24 horas, efetivo do exército, de apenas 500 homens, mais do que dobrou. 

 

Sintietfal – Como foi sua experiência no 17 de julho?

 

Fabiano Duarte – Sobre o dia mesmo específico, eu vou trazer um pouco de minhas memórias pessoais para ilustrar. Uma coisa engraçada, a gente quando entra no quartel e vai ser do exército, em uma de nossas primeiras instruções, eles mostravam uma sirene vermelha grande no centro do quartel. Um dos instrutores, uma vez disse, “se aquela sirene tocar ali, todo mundo tem que correr e pegar os equipamentos. Porque, das duas uma, ou o Brasil está sendo invadido por uma potência estrangeira ou está acontecendo uma insurreição, uma revolução. E as forças armadas têm que entrar em cena”.

 

 

E não é que no bendito dia 17 de julho a sirene tocou! Nós estávamos numa instrução e olhamos um para o outro dizendo assim, “e aí, é verdade ou um teste?”. Foi quando o instrutor mandou todo mundo correr para o paiol pegar as armas porque era verdadeiro. Afinal, já estava uma atmosfera na sociedade de que poderia acontecer uma revolta.
 

Os recrutas e soldados desceram para praça com a informação de que o governador solicitou ao presidente as tropas para garantir a integridade do patrimônio físico.

 

Sintietfal – E sobre a atuação do exército. O que você pode nos contar?

 

Fabiano Duarte – Tem muita lenda e mito sobre isso aí. O que eu ouvi no quartel, no mesmo dia, é que das forças armadas não foi disparado um único tiro. Isso foi me dito na época. E que os disparos foram dados, de dentro para fora, pelos seguranças dos deputados e, de fora para dentro, pelos policiais que tinha aderido ao movimento, os que estavam na luta pelos direitos dos servidores públicos.

 

Até porque, e eu penso que seja verdade essa questão, uma semana antes, fizemos um exercício preparatório militar e vimos a crise neoliberal de 1997 também afetar o quartel. Para se ter uma ideia, nós tínhamos feito um acampamento na zona rural com projéteis de verdade, estava em falta a munição de festim.

 

Por isso, quando alguém diz que os soldados do exército estavam com munição de festim, eu contesto. Não era verdade. Os soldados tinham cada um, um pouco de munição real, mas a orientação era que os mais graduados estivessem na linha de frente para evitar o confronto. Até porque as armas que os soldados estavam não eram apropriadas, eram armas de grosso calibre, e que teria sido uma tragédia se tivessem sido usadas lá. 

 

Os disparam que ocorreram foram de armas de pequeno calibre, revolveres, pistolas, não são armas que o exército utiliza. Isso foram as informações que circularam, na época. Inclusive de muitos recrutas que voltaram à noite para o quartel em estado de choque, nervosos, porque muitos deles se deparavam na praça com familiares, com parentes, amigos, vizinhos. A tensão foi muito grande.

 

No dia, em si, eu particularmente fiquei no quartel. Havia ameaças até da PM e dos policiais civis de que poderia invadir o quartel para pegar as armas. Na época, eu disse que se eles viessem tentar entrar no quartel, entrariam com facilidade porque o grosso das tropas estava lá embaixo. Até porque, depois as tropas ficaram divididas para tomar conta, além da Assembleia, do Palácio do Governo e do Tribunal de Justiça. Para quem viveu o momento foi assustador.

 

Sintietfal – Diante do cenário de crise econômica, dívida dos estados e estrangulamento no serviço público, você encontra alguma semelhança com a situação hoje?

 

Fabiano Duarte – Estamos vivendo um cenário de crise econômica, onde a resposta da classe dominante brasileira, mais uma vez, é ajuste neoliberal. Vão dilapidar ainda mais o que restou do patrimônio público com privatizações, demissão voluntária. São ingredientes que já vimos nos anos 1990. Isso, inclusive, está acontecendo no Rio de Janeiro. 
 

O que está acontecendo lá lembra o que aconteceu em Alagoas em 1997. Veja que a crise de Alagoas foi rapidamente contornada com a intervenção federal. Penso que a situação do Rio é muito mais complexa. Primeiro porque é o estado do Brasil com mais servidores públicos, que tem maiores salários, e economia muito mais complexa, de setor petroquímico, comércio mais importante, setores industriais – bem diferente da economia alagoana.

 

Penso que o desfecho da crise do Rio ainda está em aberto, o estado está tentando negociar, pagando uma categoria ou outra – coisa que a oligarquia alagoana não fez, inclusive para a polícia. Penso que isso é o que ainda tá dando sobrevida à crise carioca, evitando uma maior revolta popular.

 

 

17 de julho de 2017

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